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Chico Chico: O ofício da sobra e da fresta
Chico Chico: O ofício da sobra e da fresta (Foto: Reprodução)

Há uma pressa quase impaciente em tentar encontrar Cássia Eller na voz de Chico Chico. E, de fato, a genética é um fato: o timbre tem aquela mesma urgência, uma fibra que parece vibrar no limite. Mas quem se prende à semelhança perde a singularidade da obra. Enquanto Cássia era o "grande intérprete" — a força da natureza que pegava a canção de terceiros e a reinventava como um vulcão —, Chico Chico é, antes de tudo, um compositor de frestas.

As composições dele não buscam o estádio, buscam a intimidade do cochicho. Se a música da mãe era um soco na mesa, a de Chico é o ruído do móvel que se arrasta no quarto ao lado. Ele não quer ser o gigante; ele quer ser o relator de uma crônica urbana que é, por definição, menor, mais errante e, por isso mesmo, mais perigosa.

Observe a parceria com João Mantuano: o que se vê ali não é a grandiloquência da MPB de festival, mas uma interação quase etnográfica, um diálogo de violões que parecem estar sendo tocados em uma varanda, em uma conversa que a gente tem a sorte de ouvir pelo buraco da fechadura. Ele se dessemelha dos "músicos óbvios" da cena porque se nega a dar ao público o que o público espera de alguém com o seu sobrenome: o hit, o arrebatamento, a catarse.

Chico Chico compõe com uma aridez que espanta. Suas letras não são sobre amores épicos, mas sobre o cotidiano que se esfarela. Ele transformou a herança do rock não em pose, mas em método: o despojamento radical. Onde Cássia era a tempestade, Chico é o sereno que, gota a gota, acaba por corroer a estrutura. Ele é um músico que não precisa se provar maior que o legado, porque o seu projeto é precisamente o de ser menor, mais subterrâneo e mais atento ao detalhe que a grande indústria sempre decide ignorar.

Sobre o artista:

Chico Chico se estabeleceu como uma das vozes mais distintas da cena independente ao recusar a grandiloquência. Sua trajetória, marcada pelos álbuns Pompa (2021) e o denso Dia (2023), revela um compositor que entende a música como registro de cotidiano, e não como produto. A parceria com João Mantuano — registrada em Chico Chico & João Mantuano (2017) e Estado de Poesia (2022) — é o alicerce de sua estética: a valorização do improviso e da acústica como resistência. Diferente dos herdeiros que buscam o palco iluminado, Chico Chico opera na penumbra, cultivando uma discografia que privilegia a secura da palavra e a honestidade do arranjo acima de qualquer artifício de produção.

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