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Ave Sangria: O Delírio Tropical que o Brasil ainda não entendeu

A banda que transformou o desbunde psicodélico em um tratado de liberdade no Recife

Ave Sangria: O Delírio Tropical que o Brasil ainda não entendeu
Ave Sangria: O Delírio Tropical que o Brasil ainda não entendeu (Foto: Reprodução)

O Ave Sangria não é apenas uma banda; é um evento de ruptura que aconteceu no Recife em 1974. Em um Brasil sufocado pela ditadura, o grupo — liderado por figuras como Marco Polo e Almir de Oliveira — não apenas "fez música", eles criaram um choque cultural. Enquanto o eixo Rio-São Paulo estava preso entre a MPB solene e a Jovem Guarda, o Ave Sangria estava construindo um cabaret psicodélico e andrógino no Nordeste.

A identidade musical da banda era uma colisão de mundos: a base era o frevo, o baião e o rock progressivo, tudo atravessado por um filtro de teatro de variedades. Eles eram o avesso do que se esperava de uma banda vinda do Recife na época. Seus shows eram performances de maquiagem, figurinos extravagantes e uma liberdade sexual que, para os conservadores de plantão, era uma heresia. E, claro, a censura não perdoou: o único álbum oficial da banda na década de 70 foi recolhido das lojas, o que só ajudou a cristalizar a aura de "cult" em torno do nome.

O que torna o Ave Sangria tão fascinante para a curadoria da Farofamundo é a genuinidade da mistura. Eles não buscavam uma fusão "limpinha" e mercadológica; eles queriam o sujo, o experimental, o deboche. Faixas como Seu Waldir e Corpo em Chamas não são apenas canções; são recortes de uma vida vivida à margem. O grupo tratava o palco como um picadeiro onde a ironia era a arma principal, antecipando uma atitude que só veríamos ser celebrada décadas depois.

Falar do Ave Sangria é reconhecer que eles foram o lado B, sombrio e purpurinado da nossa Tropicália. Eles mostraram que a música brasileira poderia ser, ao mesmo tempo, profundamente enraizada na tradição nordestina e radicalmente cosmopolita no seu comportamento.

Sobre a banda:

Surgido no Recife em 1974, o Ave Sangria foi um coletivo de arte que se tornou o maior símbolo da psicodelia pernambucana. Com uma discografia curta — centrada no LP homônimo de 1974 —, o grupo reuniu músicos de formação variada que transitaram pelo rock, pela música regional e pelo teatro. A banda encerrou suas atividades pouco tempo após o lançamento de seu único disco, forçada pela censura e pelas dificuldades de um mercado que não estava pronto para sua estética andrógina. Após décadas de hiato, o Ave Sangria retornou aos palcos nos anos 2000, provando que sua influência sobre as novas gerações de artistas brasileiros é, e sempre será, inesgotável.

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